#208 – Qualidade na estratégia: por que a área ainda fica fora das decisões?

Sumário

A qualidade é importante.

Pelo menos no discurso, ninguém discorda disso.

Ela aparece nas políticas da empresa, nos valores organizacionais, nas apresentações para clientes e nos relatórios corporativos. Mas basta observar como as decisões estratégicas são tomadas para perceber uma contradição bastante comum: quando a empresa discute crescimento, expansão, investimentos ou novos mercados, a área da Qualidade muitas vezes não participa da conversa.

E aí surge uma pergunta importante:

Se a qualidade é tão importante, por que ela ainda está fora das principais decisões do negócio?

Esse foi o tema do episódio #209 do Qualicast, que contou com a participação de Antônio Neto, Diretor de Operações da ForLogic.

A diferença entre o discurso e a prática

Na maioria das organizações, a qualidade é reconhecida como algo fundamental.

O problema é que esse reconhecimento nem sempre se traduz em influência.

Enquanto áreas como Comercial, Financeiro, Operações e Diretoria participam das discussões que definem os rumos da empresa, a Qualidade frequentemente é acionada apenas quando surge algum problema.

Na prática, ela acaba assumindo funções como:

  • Tratar não conformidades;
  • Preparar auditorias;
  • Atualizar procedimentos;
  • Resolver problemas operacionais;
  • Garantir conformidade.

Tudo isso é importante. Mas é uma atuação predominantemente reativa.

Quando a Qualidade fica restrita a esse papel, perde a oportunidade de contribuir antes que os problemas aconteçam.

O ciclo que mantém a Qualidade no operacional

Existe um padrão que se repete em muitas empresas:

  1. Uma decisão estratégica é tomada;
  2. A Qualidade não participa da análise;
  3. O impacto da decisão gera problemas no processo ou no produto;
  4. O cliente é afetado;
  5. A Qualidade é chamada para resolver a situação.

Nesse cenário, a área deixa de atuar como prevenção e passa a atuar como correção.

O resultado é previsível: mais retrabalho, mais desperdício, mais riscos e mais custos para a organização.

Por que a Qualidade tem pouca influência estratégica?

Não existe uma única resposta.

Mas algumas barreiras aparecem com frequência.

1. Estrutura organizacional

Em muitas empresas, a Qualidade está subordinada à operação ou a áreas que não participam das decisões estratégicas.

Quando isso acontece, sua capacidade de influência naturalmente diminui.

A área acaba ficando distante dos fóruns onde o futuro da organização está sendo discutido.

2. Disputas internas de prioridade

Toda empresa possui disputas por orçamento, atenção e influência.

Quem não participa dessas conversas dificilmente consegue direcionar recursos ou influenciar decisões.

Se a liderança da Qualidade não ocupa espaço nessas discussões, outras prioridades acabam prevalecendo.

3. Falta de protagonismo

Esse é um ponto que merece reflexão.

Em muitos casos, a própria área aceita uma posição excessivamente operacional.

Fala sobre requisitos, procedimentos e não conformidades, mas tem dificuldade para traduzir esses temas em linguagem de negócio.

Quando isso acontece, a percepção da liderança é simples:

“A Qualidade é importante, mas não é estratégica.”

O que a ISO 9001 diz sobre isso?

Muitas pessoas associam a ISO 9001 apenas à documentação e à padronização de processos.

Mas a norma traz uma visão muito mais ampla.

Os requisitos relacionados à liderança e aos objetivos da qualidade reforçam a necessidade de conectar o Sistema de Gestão aos direcionadores estratégicos da organização.

Em outras palavras:

A Qualidade não deveria existir separada da estratégia.

Ela deveria ser um instrumento para alcançar os objetivos do negócio.

Como tornar a Qualidade mais estratégica?

Durante o episódio, foram discutidas três mudanças importantes.

1. Enxergar a Qualidade como risco e reputação

Qualidade não é apenas controle de processo.

Ela influencia diretamente:

  • A experiência do cliente;
  • A reputação da marca;
  • Os riscos operacionais;
  • A sustentabilidade do negócio.

Empresas que entendem isso passam a envolver a Qualidade em decisões que vão muito além da conformidade.

2. Conectar a Qualidade aos objetivos da empresa

Se a organização busca:

  • Crescer;
  • Reduzir custos;
  • Aumentar produtividade;
  • Reter clientes;

A Qualidade precisa demonstrar como contribui para cada um desses objetivos.

Por exemplo:

Se a meta é reduzir perdas de clientes, a área pode mostrar o impacto das falhas de produto na satisfação e retenção.

Se a prioridade é eficiência operacional, pode evidenciar os custos relacionados a retrabalho, desperdícios e não conformidades.

Quando essa conexão fica clara, a conversa muda de nível.

3. Traduzir indicadores em impacto de negócio

Talvez este seja o ponto mais importante.

Muitas lideranças não tomam decisões baseadas em indicadores da Qualidade.

Elas tomam decisões baseadas em:

  • Receita;
  • Lucro;
  • Risco;
  • Crescimento;
  • Clientes.

Por isso, em vez de dizer:

“As não conformidades aumentaram.”

Pode ser mais eficaz dizer:

“As falhas geraram retrabalho, aumentaram custos e colocaram em risco a satisfação dos clientes.”

A informação é praticamente a mesma.

O impacto da mensagem é completamente diferente.

Qualidade estratégica não é mais burocracia

Existe uma ideia equivocada de que uma área estratégica é aquela que possui mais controles, mais documentos ou mais procedimentos.

Na prática, acontece o contrário.

Uma Qualidade estratégica é aquela que consegue influenciar decisões.

É a área que participa das discussões antes dos problemas surgirem.

É aquela que ajuda a empresa a enxergar riscos, oportunidades e impactos de longo prazo.

A pergunta que fica

Se amanhã sua empresa discutir um novo mercado, uma aquisição, uma mudança de fornecedor ou um grande investimento…

A área da Qualidade será convidada para a reunião?

A resposta para essa pergunta pode dizer muito sobre o papel que a Qualidade ocupa hoje dentro da organização.