#216 – O Profissional da Qualidade do Futuro: 5 competências que vão fazer a diferença

Sumário

Você sabe quem é o profissional da qualidade do futuro? O trabalho do profissional da Qualidade está mudando. A inteligência artificial, a transformação digital, o acesso cada vez maior a dados e a pressão por produtividade estão alterando a forma como as empresas trabalham — e, consequentemente, o que esperam de quem atua na Qualidade.

Por muitos anos, o profissional da Qualidade esteve associado ao controle de documentos, auditorias, procedimentos, indicadores e conformidade com normas como a ISO 9001. Essas atividades continuam importantes, mas já não são suficientes para diferenciar um profissional no mercado.

O profissional da Qualidade do futuro precisa ir além da execução operacional. Precisa interpretar dados, compreender o negócio, comunicar-se com diferentes áreas, utilizar tecnologia e transformar informações em decisões que contribuam para o desempenho da organização.

Esse foi o tema do Qualicast #215, que reuniu Jeison Arenhart de Bastiani, Monise Carla e Fernanda Craveiro para discutir as transformações da profissão e as competências que ganham importância a partir de agora.

O que está mudando no trabalho do profissional da Qualidade?

A transformação da Qualidade não acontece por causa de uma única tecnologia ou tendência. Ela é resultado de várias mudanças que estão acontecendo simultaneamente nas organizações.

Inteligência artificial

A inteligência artificial já pode ser utilizada para acelerar atividades que antes consumiam bastante tempo, como organizar informações, resumir documentos, identificar padrões e apoiar análises.

Para o profissional da Qualidade, isso significa uma mudança importante: parte do trabalho operacional pode ser automatizada ou realizada com muito mais velocidade.

Mas isso não elimina a necessidade de conhecimento técnico.

Pelo contrário. Quanto mais a tecnologia participa do processo, mais importante se torna saber fazer as perguntas certas, avaliar resultados, identificar riscos e tomar decisões com base no contexto da organização.

A IA pode acelerar o trabalho. Ela não substitui o raciocínio necessário para compreender processos, riscos, oportunidades e resultados.

Excesso de informação

Nunca tivemos tantos dados disponíveis.

Indicadores, sistemas, relatórios, pesquisas, registros de ocorrências e diferentes fontes de informação podem ajudar a compreender melhor o desempenho de uma organização.

O problema é que ter informação não significa necessariamente saber utilizá-la. O profissional da Qualidade precisa desenvolver a capacidade de separar o que é relevante do que é apenas volume de informação. Em muitos casos, decidir rapidamente o que merece atenção é mais importante do que conhecer todos os dados disponíveis.

Velocidade das mudanças

Práticas que eram consideradas adequadas alguns anos atrás podem rapidamente se tornar insuficientes.

Novas tecnologias, mudanças no comportamento dos clientes, novos modelos de trabalho e transformações nos processos fazem com que o profissional precise aprender continuamente.

Por isso, a capacidade de aprender, adaptar-se e rever a própria forma de trabalhar passa a ser uma competência profissional importante.

Pressão por produtividade

As organizações precisam produzir mais valor com os recursos que possuem.

Isso também chega à Qualidade.

A área precisa demonstrar que suas atividades contribuem para o desempenho do negócio e não apenas que os requisitos estão sendo cumpridos.

Auditorias, indicadores, planos de ação e análises precisam estar conectados a problemas reais e decisões relevantes.

Transformação digital e decisões baseadas em dados

Sistemas cada vez mais integrados reduzem a dependência de planilhas e controles manuais. Ao mesmo tempo, aumentam a quantidade de dados disponíveis para análise.

A decisão baseada em evidências, inclusive, não é uma novidade para a Qualidade.

A ISO 9001 já apresenta a abordagem de tomada de decisão baseada em evidências entre seus princípios de gestão da qualidade. O requisito 9.1 também estabelece que a organização deve determinar o que precisa ser monitorado e medido, além de definir métodos e critérios para análise e avaliação.

A novidade está, em grande parte, na escala.

Hoje, o profissional tem acesso a muito mais informação e a ferramentas muito mais rápidas para processá-la. Portanto, a capacidade de interpretar dados e transformá-los em conhecimento útil para o negócio ganha ainda mais importância.

O que antes era diferencial e agora virou obrigação?

Conhecer a ISO 9001, saber realizar auditorias, controlar documentos, elaborar procedimentos e utilizar ferramentas clássicas da Qualidade continuam sendo competências necessárias.

Mas existe uma diferença entre ser capaz de executar essas atividades e ser capaz de gerar valor a partir delas.

O conhecimento da norma, por exemplo, é fundamental para quem trabalha com Sistemas de Gestão da Qualidade. Porém, em um mercado mais maduro, conhecer os requisitos deixou de ser suficiente para se destacar.

O mesmo vale para auditorias.

Saber conduzir uma auditoria é importante. Mas um profissional que consegue utilizar a auditoria para identificar riscos, oportunidades e problemas relevantes para o negócio tende a gerar muito mais valor.

A lógica também se aplica aos documentos e procedimentos.

Escrever um bom procedimento continua sendo importante. Mas o diferencial está em compreender por que aquele processo existe, qual resultado precisa produzir e como saber se ele está funcionando.

Em outras palavras, as ferramentas continuam existindo. O que muda é o nível de contribuição esperado de quem as utiliza.

Quais são as competências do profissional da Qualidade do futuro?

Não existe uma lista definitiva de competências que garanta o sucesso de um profissional da Qualidade.

Ainda assim, algumas habilidades ganham destaque nesse novo cenário.

1. Pensamento sistêmico

O profissional da Qualidade precisa enxergar além do processo sob sua responsabilidade.

Um problema em um indicador pode estar relacionado a fornecedores, produção, atendimento, pessoas, tecnologia, logística ou decisões estratégicas.

Pensar de maneira sistêmica ajuda a compreender essas relações e evita tratar problemas complexos como se fossem isolados.

2. Comunicação

A Qualidade produz muitas informações técnicas.

Mas informação técnica só gera impacto quando consegue chegar às pessoas certas de maneira compreensível.

Saber apresentar um problema, explicar suas consequências e defender uma recomendação diante da liderança passa a ser tão importante quanto saber calcular um indicador ou conduzir uma auditoria.

3. Capacidade de trabalhar com dados

Esse é um dos pontos centrais para o profissional da Qualidade.

Não basta produzir dashboards, atualizar planilhas ou apresentar gráficos.

É preciso saber responder perguntas como:

  • O que esse indicador está mostrando?
  • Por que esse resultado aconteceu?
  • Existe alguma relação entre indicadores diferentes?
  • Qual tendência merece atenção?
  • Que decisão deveria ser tomada a partir dessa informação?

A diferença está entre medir e compreender.

Imagine, por exemplo, um analista que observa dois indicadores aparentemente positivos quando analisados separadamente. Ao cruzar essas informações, percebe uma relação que aponta para um problema de fornecedor que não havia sido identificado.

O valor do profissional não está apenas no dashboard.

Está no insight que ele consegue extrair dos dados.

Como a inteligência artificial muda a atuação na Qualidade?

A inteligência artificial provavelmente será uma das tecnologias mais relevantes para a transformação do trabalho na Qualidade.

Mas é importante evitar dois extremos: tratar a IA como uma ameaça que vai simplesmente substituir profissionais ou acreditar que basta utilizar uma ferramenta de IA para se tornar mais produtivo.

O ganho está na combinação entre conhecimento técnico + capacidade analítica + tecnologia.

Um profissional que conhece os processos da organização pode utilizar IA para acelerar tarefas, organizar informações, apoiar análises e reduzir trabalhos repetitivos.

Por outro lado, quem não conhece o contexto pode produzir uma resposta tecnicamente bem escrita, mas inadequada para a realidade da empresa.

A tecnologia muda a velocidade do trabalho. Os fundamentos da Qualidade continuam sendo necessários.

Ainda precisamos compreender processos, como estabelece o requisito 4.4 da ISO 9001; riscos e oportunidades, relacionados ao requisito 6.1; e monitoramento, medição, análise e avaliação, tratados no requisito 9.1.

A IA pode ajudar a executar essas atividades. Ela não substitui a responsabilidade de raciocinar sobre o Sistema de Gestão da Qualidade.

O que continua igual na Qualidade?

Em meio a tantas transformações, existe um ponto importante: nem tudo precisa mudar.

Alguns fundamentos continuam sendo essenciais para qualquer profissional da Qualidade:

Foco no cliente

A Qualidade existe para contribuir com a capacidade da organização de entregar resultados que atendam às necessidades e expectativas relevantes.

Tecnologia nenhuma substitui essa lógica.

Melhoria contínua

Melhorar processos, resultados e desempenho continua sendo parte central da gestão da Qualidade.

As ferramentas podem mudar. O princípio permanece.

Disciplina

Métodos, processos e ferramentas só funcionam quando existe disciplina para aplicá-los.

Uma nova tecnologia não resolve, sozinha, problemas de gestão.

Método

Problemas complexos precisam ser tratados de forma estruturada.

A capacidade de analisar causas, avaliar riscos, definir ações e verificar resultados continua sendo fundamental.

Decisões baseadas em evidências

Ter dados melhores e ferramentas mais avançadas não diminui a importância desse princípio.

Pelo contrário: quanto mais informação existe, maior é a necessidade de saber utilizá-la adequadamente.

O que o profissional da Qualidade pode começar a fazer agora?

A transformação profissional não precisa começar com uma grande mudança de cargo ou com a adoção de dezenas de ferramentas.

É possível começar na própria rotina.

Pegue um indicador e procure o insight

Escolha um indicador que você já acompanha.

Em vez de apenas registrar o resultado, pergunte:

“O que esse número está dizendo além do óbvio?”

Procure tendências, relações com outros indicadores e possíveis causas.

Experimente IA em uma atividade real

Escolha uma tarefa manual e teste uma ferramenta de inteligência artificial para acelerar uma etapa.

Pode ser resumir um relatório, organizar informações, comparar dados ou apoiar uma primeira análise.

O objetivo não é substituir seu conhecimento, mas descobrir onde a tecnologia pode aumentar sua produtividade.

Dê mais propósito às auditorias

Antes da próxima auditoria, pergunte:

“Essa auditoria vai gerar apenas uma evidência de conformidade ou também vai gerar informação útil para uma decisão?”

A pergunta pode mudar a forma como você prepara, conduz e apresenta os resultados.

Troque o dashboard pelo insight

Na próxima reunião com a liderança, não leve apenas uma planilha.

Leve uma conclusão.

Explique o que aconteceu, por que isso importa e qual decisão ou ação você recomenda.

Essa é uma das formas mais práticas de começar a aumentar o valor percebido do trabalho da Qualidade.

O futuro do profissional da Qualidade

A profissão está mudando porque as organizações estão mudando.

O profissional da Qualidade do futuro não precisa abandonar aquilo que aprendeu sobre normas, processos, auditorias, indicadores e métodos. Precisa ampliar a forma como utiliza esse conhecimento.

Conhecer a ISO continua importante. Saber auditar continua importante. Controlar processos continua importante.

Mas, cada vez mais, será necessário conectar essas atividades aos problemas do negócio, interpretar informações, utilizar tecnologia, comunicar-se com a liderança e contribuir para decisões melhores.

No fim, talvez a principal mudança seja essa:

o profissional da Qualidade deixa de ser reconhecido apenas pelo que executa e passa a ser cada vez mais valorizado pelo impacto que consegue gerar.

E essa transformação já começou.

Ouça o Qualicast #215

Neste episódio, Jeison Arenhart de Bastiani, Monise Carla e Fernanda Craveiro aprofundam essa discussão e conversam sobre as competências que podem fazer diferença para quem trabalha ou pretende trabalhar com Qualidade nos próximos anos.

Dê o play no episódio “O profissional da Qualidade do futuro – O que muda a partir de agora?” e acompanhe a conversa completa.

Se você trabalha com Qualidade, conte nos comentários: quais dessas mudanças já fazem parte da sua rotina?

Mais conteúdos sobre Qualidade e Inteligência Artificial

Se você quer entender melhor como a inteligência artificial pode ser aplicada à Qualidade, confira também os episódios Qualicast #171 e #209, ambos com Jack, nos quais o tema é explorado de forma mais aprofundada.

E acompanhe o Qualicast para continuar aprendendo sobre Qualidade, Excelência e Gestão.